Hoje escrevo este post porque (1) esse tema tem surgido com frequência nos meus círculos de convivência, tanto no Brasil quanto aqui no Canadá, dentro e fora da Ecologia, e (2) porque sinto que é uma reflexão necessária para mim neste momento.
Você também tem a sensação de que nós, pesquisadores, estamos sempre atrasados de alguma maneira?
Publicamos um artigo, apresentamos em um evento e logo seguimos para o próximo desafio. Muitas vezes, não reservamos tempo para celebrar uma conquista ou assimilar uma rejeição. Isso acontece porque, na academia, concluir algo raramente significa, de fato, terminar. Sempre há uma próxima etapa à espera. Quantas vezes você finalizou um trabalho já com a expectativa de que era hora de começar o próximo?
Esse ciclo se torna perigoso porque, quando não reconhecemos o nosso próprio esforço, nossas conquistas passam despercebidas. Com o tempo, nenhum reconhecimento externo parece suficiente. Aos poucos, internalizamos a ideia de que não somos bons o bastante e, junto com ela, vem o medo: de falhar, de não corresponder. Um medo que pode moldar nossas escolhas e, em alguns momentos, nos paralisar.
Quando eu estava na graduação e comecei a estudar fragmentação do habitat, uma das primeiras mulheres que admirei foi a professora com quem trabalho hoje, que é uma das maiores referência na área. Se alguém tivesse me dito, naquela época, que eu um dia trabalharia com ela, eu nunca teria acreditado… ainda têm dias em que eu não acredito. Quando ela me aceitou e, mais tarde, elogiou o meu trabalho, eu fiquei imensamente feliz, mas logo vieram os pensamentos: “cedo ou tarde, ela vai perceber que não sou boa o suficiente.”, “será que pesquisa é mesmo o que eu quero fazer?”. Essas perguntas não existiam antes. Sempre fui apaixonada pelo trabalho de campo e pela pesquisa, e trabalhar com alguém que admiro parecia, antes, algo certo. Então, o que mudou?
Eu acredito que, ao longo do doutorado, me concentrei tanto em cumprir etapas (disciplinas, campo, análises…) que acabei deixando de aproveitar partes importantes do caminho: o convívio com amigos, a experiência em campo, a mudança de país, a celebração das minhas conquistas. Agora, a menos de um ano de concluir, essa sensação de não ter aproveitado tudo ainda persiste.
A formação acadêmica é muito mais do que a conclusão de um grau. Por isso, ter uma vida fora da academia também é essencial. Mas como equilibrar isso quando o trabalho se estende para além do laboratório e do campo, ocupando intervalos, fins de semana e até os pensamentos antes de dormir?
O equilíbrio é frequentemente tratado como responsabilidade individual, como se bastassem organização e disciplina. Mas e se o problema não for apenas pessoal? E se essa sensação constante de insuficiência fizer parte da própria estrutura acadêmica, alimentada por métricas de produtividade, pressão por publicação e expectativa contínua de desempenho?
O mais curioso é que, mesmo mudando de contexto (de país, de instituição, de cultura) essa lógica parece se repetir, às vezes com intensidades diferentes, mas sempre presente. Em que momento deixamos de celebrar nossas próprias conquistas? O que acontece quando viver passa a ser apenas dar conta do próximo passo?
A questão talvez não seja apenas como sair desse ciclo, mas por que, de algum modo, aprendemos a aceitá-lo.
E você, leitora, o que sente?
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